O olhar e a atenção

O olhar e a atenção

Qual o tipo de foco que o psicólogo deve ter em seus atendimentos? Como prestar atenção de uma forma que favoreça boas intervenções? Diferentes matrizes sensoriais – a audição, o olhar, o tato – servem como bases para metáforas que realçam determinadas qualidades da atenção do psicólogo. Na literatura de nossa área, há um claro favorecimento da escuta como ancoragem da atenção. Isso porque a escuta presume a fusão de si com o fenômeno que é escutado, ao passo que o olhar presume distanciamento entre eu e o outro.   Apesar do olhar ser relegado a segundo plano, estou certo de que ele permite analogias interessantes. Podemos pensar no caleidoscópio – formas que vão se renovando, sofrendo metamorfoses. Nos binóculos: podemos nos aproximar e nos afastar. Nas lentes que permitem diferentes focalizações. Alternar perspectivas, reunir partes, buscar encontrar o objeto inteiro.     Clique aqui para ver a cena do filme Beleza Americana   Ao meu ver uma pessoa que abordou com primazia a questão da atenção e do olhar é Simone Weil – uma filósofa francesa do século XX. Ela diz:   “A condição é que a atenção seja um olhar e não um apego”.   A atenção sustenta a distância: não engolfamos o outro com nossas pré-concepções, mas também não nos deixamos fascinar pelo objeto. A atenção não deve ser um esforço muscular de apreensão. Em vez disso, ela contempla diversas perspectivas, cotejando-as. Busca, incansavelmente, pontos de vista que reúnam focalizações estreitas em outras mais amplas.  Atenção é inclinação ao objeto que percebemos, não a busca por preencher nosso vazio interior. É paciente e perseverante; firma-se pelo despojamento do que já sabemos e lança-se ao mistério. Busca cotejar múltiplas visadas até encontrar o centro de gravidade do objeto, sua essência.    Em psicologia, frequentemente lidamos com objetos fragmentados – pessoas e fenômenos reduzidos em sua potência, cindidos, despedaçados. A atenção, neste caso, dirige-se à reparação do que foi fragmentado, buscando sua reintegração.   Classicamente, em psicanálise, fala-se que o analista deve sustentar uma atenção flutuante. Não deve agarrar-se aos aspectos objetivos do que é falado: sua atenção nota esses aspectos, mas em sua mente, o analista deve sempre manter uma área de reserva, que permite que ele tenha, também, liberdade para fazer associações. Presume-se, nesse sentido, uma comunicação entre inconscientes, do paciente e do analista. A atenção do analista flutua entre os aspectos objetivos e os aspectos subjetivos que margeiam o que é falado.   Acredito que essas contribuições sejam importantes porque destacam a importância do analista variar perspectivas: não olhar o paciente como se estivesse num microscópio, sob uma focalização que atomize uma pessoa a detalhes, mas também não se distanciar em demasia, de modo a não se afetar pela situação. Nesse sentido, também, a psicanálise explora o fato de que a sensibilidade do analista, a forma como ele é afetado pelo outro, também é base para conhecer a situação do paciente. É isso que permite que a terapia seja viva e vibrante, com momentos em que tanto o paciente quanto o analista sejam transformados pela situação que constroem juntos.   Eu noto, no entanto, que algumas formas enrijecidas de praticar a psicanálise atêm-se muito mais àquilo que não é dito, ou seja, aos aspectos latentes dos quais o paciente não tem consciência, do que ao que de fato é dito. Há formas de atenção que inclusive são aprisionantes, pois tornam o outro objeto, fixam-se a determinadas compreensões que esquematizam a situação clínica. Está muito claro para mim, hoje, que pessoa não é matéria de conhecimento, pois sempre podem emergir de uma pessoa aspectos novos. O objeto da atenção não é a pessoa atendida, mas a tarefa clínica que está em jogo no atendimento. Em muitos casos, em vez de buscar aspectos inconscientes, é profícuo que o psicólogo se deixe guiar pelo olhar do outro, pelo que o outro tematiza e apresenta com sua fala.  Há um jogo teatral no qual uma pessoa fica vendada e é guiada por outra pessoa. É uma boa metáfora para a prática clínica porque, se nos deixarmos guiar pelo paciente, vamos lentamente tateando um caminho até que possamos alcançar uma boa apreensão do que se passa. Pacientes com frequência pressentem o que pode ajudá-los e de algum modo sinalizam isso ao analista. Inclusive, se o analista começa a dirigir a tarefa para uma direção infrutífera, o paciente em geral percebe rapidamente que o que precisa está em outra direção.    Na prática clínica com crianças, em particular, noto que a criança, pela brincadeira e pelo jogo, coloca-nos diante do seu sofrimento, muitas vezes criando situações em que o próprio analista se vê diante de um sofrimento análogo ao que a criança vive. Isso é feito pois, ao meu ver, há um anseio grande no humano em ser compreendido em seu sofrimento, ou vivenciá-lo em comunidade com alguém que possa testemunhar o que se passa.   Existem, é claro, pacientes que têm resistência ao processo analítico e que não se engajam na tarefa clínica, postergando o contato consigo mesmos, enrolando a situação da análise, preenchendo as sessões com ruídos, conteúdos que obliteram seu sofrimento. Dessa maneira, a resistência também é um fenômeno possível na clínica, embora eu acredite que em alguns casos esse aspecto seja demasiadamente enfatizado. Pensar demasiado em resistência impede a percepção de que o paciente usa suas defesas para se proteger. Muitas vezes a busca por minar a resistência leva a um impasse no qual o paciente fica ainda mais defendido.   Acredito que, à medida que uma pessoa vai caminhando na análise e ganhando confiança na relação terapêutica e em si mesma, ela passa a prescindir de defesas exageradas. No tocante aos pacientes que “falam muito para não dizer nada”, acredito que em primeiro lugar é necessário ter paciência e, em segundo lugar, que essa situação não deve se engessar, ou seja, o terapeuta busca aos poucos que o paciente possa implicar-se em sua situação de vida. Nos meus atendimentos, em geral, eu costumo ser honesto com o que percebo e explícito questões que o paciente tematiza: não aguardo muito tempo para que os aspectos difíceis da situação sejam trazidos à tona.